Um pouco de história

caleidoscópios dos diálogos sobre conflitos

uma leitura ampla

Cultura de diálogo
Perspectiva ético-política
Princípios de ação
Princípios-tarefas
Desindividualizar o olhar
Sujeitos metamorfose
Perspectiva restaurativa
Desjudicializar a vida
Fazer coletivo na escola
As regras na escola
Conflito e violência

alguns dilemas

conceitos-ferramentas

práticas

Práticas

| conflitos na escola

1

círculo restaurativo

A figura explicita o passo a passo de um círculo de conversa em torno de um conflito na perspectiva dos processos circulares da americana Kay Pranis, um dos métodos mais disseminados no Brasil de Justiça Restaurativa. Se comparado com o fluxo dos encontros de mediação não é muito diferente na teoria. No entanto, na prática do encontro as diferenças são marcantes.

Círculo restaurativo
baseado em Kay Pranis (clique para ampliar)

O que de fato caracteriza o encontro restaurativo:


– Os encontros restaurativos costumam trazer mais pessoas para a roda.

Diante de uma ofensa acontecida e havendo disponibilidade do ofensor em participar de um encontro restaurativo, o facilitador do encontro conversa individualmente com ofendido e ofensor para compreender se de fato os dois têm disponibilidade de conversar e encontrar formas de conviver mais construtivas. Verifica também se o ofensor tem disponibilidade para reparar de alguma maneira o dano que provocou.

Nessas conversas prévias ao encontro, o facilitador propõe que cada um leve alguém como apoio, para se sentir mais seguro na roda. O facilitador então conversa com eles e pensa que outros apoios poderiam ajudar nessa conversa, de forma a ampliar a rede de apoio dos envolvidos. Pactua esses outros apoios com os envolvidos. Pessoas indiretamente envolvidas também podem ser chamadas para o círculo.

– A ritualística do encontro circular restaurativo é bem marcada: são marcados o início e o fim do encontro (isso também ocorre na mediação), há um centro, muitas vezes uma peça de fala;

– O facilitador do círculo faz previamente um roteiro de perguntas e faz essas perguntas serem respondidas uma a uma por todos os presentes no círculo. A conversa não acontece de maneira espontânea, ela é regulada por essa dinâmica de circulação das perguntas lançadas pelo facilitador.

De fato, o círculo restaurativo é o clímax de uma série de encontros individuais anteriores. Muito do trabalho de elaboração que na mediação se dá no encontro entre os envolvidos, no círculo se dá antes do próprio círculo acontecer, nos chamados encontros de pré-círculo. Lembrando que quando o círculo acontece, o ofensor já assumiu sua responsabilidade no acontecido.

exemplificação de um círculo restaurativo
Passos de uma roda com adolescente após descumprimento de um combinado com o grupo: planejamento

Caso prático desenvolvido por Ana Lucia Catão | Curso Mediação de Conflitos nas escolas: reflexão e prática – UMAPAZ 2012

1ª passo – conversa com o adolescente para ver se ele quer participar da roda

2ª passo – chamar todos da turma e a diretora para a roda no lugar tal, na hora tal.

3ª passo – definir o objetivo do encontro e fazer os combinados.

  • objetivo da reunião:

    Conversar com o grupo para ver a possibilidade do adolescente voltar para o grupo de trabalho

  • combinados:

    - falar na primeira pessoa: vale a pena explicar que isso ajuda a cada um falar do seu sentimento/idéia e que aqui a idéia não é acusar ou julgar ninguém
    - que as falas sejam respeitosas

  • 1ª rodada:

    um objeto passará pela roda na sequencia, quem estiver com o objeto responde a pergunta se não quiser responder pode passar a vez (quem está de posso do objeto está com a fala, os outros com a escuta).

  • 2ª rodada:

    a peça passa novamente pelas mãos de todos e quem não falou e quiser falar, tem outra chance de falar.

4ª passo – explicitar para o grupo

  • relatar o que aconteceu:

    o adolescente estava na “peneira” e desrespeitou os combinados ao agredir outro adolescente. A coordenadora do grupo de trabalho disse que o adolescente não passou na “peneira” e que ele não faria mais parte dele.

  • pedir para o adolescente que agrediu:

    - dizer o que ele conversou com a diretora e a coordenadora no sentido de pedir para voltar para o gt.

  • Se ele não falar espontaneamente, fazer perguntas

  • pedir ao grupo que responda:

  • como cada um se sente em relação ao pedido de volta do adolescente ao grupo? (diretora também fala, por último)

  • Anotar principais pontos e resumir para o grupo no final

  • o que precisaria acontecer para que ele ficasse?

  • Anotar principais pontos e resumir para o grupo no final

  • perguntar para o adolescente:

  • Você acha que é possível fazer o que o grupo está pedindo?

  • O que você acha que consegue fazer?

  • O que você acha que não consegue fazer?

  • Que ajuda você precisa para poder conseguir fazer o que está sendo proposto?

  • perguntar para o grupo:

  • Como cada um do grupo pode ajudar o adolescente a cumprir o que se está pedindo?

  • Passar o objeto de fala para a roda;
    firmar compromisso com essas atitudes

  • Fazer uma colheita coletiva num papel ou na lousa dos combinados de ajuda recíproca e de compromissos, que todo mundo os vejam aparecendo por escrito. Vejam se acham bom.

  • podemos tentar novamente dentro destes combinados a volta do adolescente para o gt?

  • passar o objeto de fala para a roda

    SE houver a questão “se o adolescente não cumprir o que vai acontecer?”, devolver a pergunta para o adolescente, para ele dizer o que fazer se ele não cumprir. Se ele for muito duro com ele mesmo, vale a pena atenuar um pouco.

5ª passo – fechamento

  • Cada um vai dizer uma palavra que represente o desejo de cada um para o “andamento” do grupo (passando o objeto de fala).

2

exercício de escuta mútua

Este é um dos exercícios mais clássicos de escuta. Ele promove empatia, sensibiliza para a escuta e a diferença entre o que queremos dizer e o que o outro escuta, fortalece vínculos entre as pessoas. Aparentemente banal para muitos, não é tão simples de fazer.

Antes de começar, é importante contar como se dará a sequência, falar da inversão de papéis, para só depois dar a partida. Pode haver um lembrete escrito na lousa com indicação das etapas.

exemplificação de escuta mútua com feedback

Exercício de escuta mútua com feedback

  • primeira sequência

    Duas pessoas se sentam de frente uma para outra (não de lado, mas de frente) e têm a tarefa de contar uma para a outra uma situação de conflito que, no seu entender, não teve um bom desfecho.

  • fique de olho:

    Nesse ponto, é importante pedir às pessoas que atentem para o contexto e contem conflitos que não as exponham demais. Não precisam ser os grandes dilemas da vida, nem os mais banais, tampouco precisam ser conflitos vividos na escola. É preciso fazer um combinado de sigilo entre os participantes, garantindo que nada do se escuta nesse espaço deve sair dali, para não destruir a possibilidade de construção de espaços de confiança e cuidado mútuo.

  • Enquanto A conta para B a sua situação de conflito, B apenas escuta, suspendendo seu julgamento sobre o que está escutando e procurando compreender o que A está contando. B não interfere, não pergunta, não dá opinião.

  • Quando A acaba de contar a sua história, B relata para A o que escutou. Por exemplo, B pode dizer: "Do que você contou, eu escutei que está muito chateada com...., porque ele..." e checa com A se entendeu bem o que A queria dizer: "Foi isso que você quis dizer?".

  • A então confirma que B entendeu ou retoma alguns pontos que considera que B não entendeu como A gostaria.

  • Se houver essa retomada, B relata novamente o seu entendimento para A, confirmando com A se o relato ficou claro.

  • segunda sequência

    A e B invertem os papéis

Essa inversão é importante para colocar as duas pessoas num certo equilíbrio de poder. As duas pessoas sabem sobre o conflito uma da outra, o que gera mais confiança. Por isso, é fundamental cuidar do tempo.

Por exemplo:

15 min.
15 min.

A conta para B

15 min.
15 min.

B conta para A

10 min.
10 min.

para conversar um pouco a dois sobre como foi a experiência

dica

Marcar o tempo e comunicar (com o som de um sino, por exemplo) que o tempo acabou pode ajudar muito.

20 min.
20 min.

compartilhamento coletivo sobre exercício

Foi fácil escutar sem opinar? E como foi ter alguém escutando? Vocês se sentiram escutados? E o feedback, como foi?

Com esses tempos, esta é uma atividade de 70 minutos de duração.

  • Essa é a sequência básica que pode ser então modificada ou floreada. Por exemplo, depois de fazer essa sequência, pode-se retomá-la, só que dessa vez, além de checar o entendimento, B formula perguntas. E, assim, a dupla pode ir treinando as perguntas informativas, reflexivas e mobilizadoras, bem como as afirmações operativas.

3

conversando sobre conflitos com os alunos

Um modo interessante de trabalhar preventivamente na escola é tornar os conflitos tema de conversa em rodas na sala de aula: apresentar uma situação de conflito que seja comum entre as crianças ou adolescentes e imaginar alternativas de atitudes diante do conflito.

A ideia não é apresentar a atitude certa a tomar, não se trata de uma aula de moral, mas sim de abrir espaço de conversa em que cada um conta o que sente diante de situações como essas, como reage a elas e como poderia ser ajudado.

 Encenar conflitos também é uma ideia interessante, sobretudo utilizando recursos do teatro do oprimido, em que uma vítima relata uma situação vivida, pensa em grupo como representar a situação em 3 cenas correspondentes a 3 momentos (antes, clímax e desfecho).

Feita a encenação uma vez com a vítima representando seu próprio papel, combina-se de encenar uma segunda vez. Desta vez, alguém pode interromper a cena durante a atuação da vítima em qualquer ponto e se colocar no lugar. Em cena, essa pessoa vai mudar o jeito que a vítima atuou, será uma vítima que tenta sair do papel de vítima. Opressor e coadjuvantes continuam os mesmos e agem conforme imaginam que o verdadeiro opressor agiria diante da mudança de comportamento da vítima.

A cena pode ser atuada novamente muitas vezes, sempre mudando o ator que faz a vítima, inclusive a verdadeira vítima pode tentar atuar novamente.

A ideia é trabalhar a potência da vítima: ir construindo a possibilidade de reverter a situação saindo desse papel.

Depois de várias possibilidades de cena, fazer uma roda de conversa para elaborar o vivido.

exemplo que poderia ser apresentado aos estudantes

Exercícios em sala de aula com conflito

A proposta deste exercício é apresentar situações fictícias de conflitos comuns no cotidiano da escola e propor que a turma converse sobre como agir para lidar com situações como essas.

  • exemplo:


    Janaína conta para um grupo de amigas que Vanessa gosta de Claudeci, um segredo que ela devia ter guardado.


  • Vanessa (que estava por perto sem Janaina perceber):

  • Vanessa vira as costas e vai embora.
    No seu entender, Janaína deveria:

  • • Sair atrás de Vanessa e conversar sobre o que aconteceu?
    • Deixar para conversar depois?
    • Deixar para lá, pois Vanessa logo esquece?
    • Dizer a Vanessa que todo o mundo já sabia e que ela não precisa ficar chateada?

O objetivo de abrir a discussão por meio desse exercício não é encontrar a resposta certa, mas, partindo dessas possíveis respostas, poder conversar sobre como cada um reagiria, como seria estar na pele de Janaína e de Vanessa em cada uma dessas alterna­ tivas, permitindo que surjam ainda outras respostas, além das indicadas aqui.

  • Pode-se ampliar a discussão fazendo perguntas como:

    • Que outras pessoas estão sendo afetadas por essa situação além de Vanessa, Claudeci e Janaína?
    • O que vocês fariam para lidar com uma situação como essa?

O importante é que todos participem da conversa e contem o que pensam sobre uma situação como essa, como se sentiriam no lugar dos envolvidos, o que seria um bom desfecho, como poderiam agir para alcançá-lo. Trata-se de refletir sobre as próprias ideias, os sentimentos e os valores envolvidos.

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saber fazer perguntas

O tema das perguntas é imenso. Esse talvez seja um dos pontos nodais de toda intervenção em situação de conflito.

Aprender a fazer boas perguntas é fundamental. A sequência da conversa, seja na Mediação de Conflitos, nas Práticas Restaurativas ou na Comunicação Não Violenta, é pontuada por perguntas e intervenções afirmativas de quem está na condução da conversa.

Há vários tipos de perguntas: perguntas de esclarecimento, perguntas reflexivas, perguntas mobilizadoras.

Além das perguntas, há afirmações operativas, que vão dando o tom da conversa, fazendo funcionar a lógica da valorização e do reconhecimento mútuo, criando um clima de confiança e construção conjunta.

perguntas e intervenções

Perguntas e intervenções

Conteúdo desenvolvido por desenvolvido por Ana Lucia Catão no livro Mediação de Conflitos  da coleção Respeitar é Preciso (páginas 58-65)

Perguntas de esclarecimento ou informativas

As perguntas de esclarecimento são as mais usadas durante a narrativa das histórias e permitem a todos que estão conversando compreender a situação de conflito e o seu contexto.

O quê? Quando? Onde? Como? Para quê?

Dependendo de como se fazem essas perguntas, elas podem dar a impressão de que as pessoas estão numa situação de inquérito (em que se busca descobrir o culpado e a dimensão do estrago) ou numa situação de entendimento mútuo (em que se busca compreender o que aconteceu na vivência de cada um para poder lidar com as suas consequências e pensar sobre como evitar que aconteça novamente ou sobre como fazer, neste caso, para que a violência seja minimizada).

Na perspectiva da Mediação, essas perguntas são feitas para gerar um contexto de entendimento mútuo, e o viés do inquérito é deixado de lado. Não se buscam culpados, sequer se busca a verdade (pois se entende que não há uma verdade única, mas várias verdades, ou perspectivas e leituras distintas de uma mesma situação).

A ideia é criar uma imagem compartilhada e complexa do que aconteceu, composta pelas vivências de cada um diante da situação, como aquelas imagens com figura e fundo nas quais temos dificuldade de visualizar todos os aspectos ao mesmo tempo. Olhamos para a imagem e precisamos acostumar o nosso olhar para conseguir perceber que há mais nela do que vemos de imediato e, com frequência, ao olhar para determinado aspecto da imagem, deixamos de ver outro e precisamos piscar para conseguir vê-lo novamente, mas, ao focar nele, perdemos o anterior e novamente piscamos para ver o que perdemos… E assim sucessivamente.

  • exemplo:


    Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e outro, outra, ou um via um lado das coisas e outro, um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro. Mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.”

    Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Sabemos que a imagem é composta de vários elementos, mas temos dificuldade de enxergar todos ao mesmo tempo.

Essa é a sensação que o mediador tem depois de ter conseguido fazer uma boa escuta das narrativas. Ele não escolhe quem tem a narrativa mais correta ou mais verossímil para apoiá-la, ele não faz acareação entre as narrativas. Ele convive com as diferentes narrativas, muitas vezes contraditórias, e valida todas elas, pois sabe que as situações são realmente complexas.

Por esse motivo, é muito rico e desafiador organizar o encontro para que as narrati- vas sejam feitas em conjunto, possibilitando que quem está em conflito se depare com o fato de o outro ter uma narrativa muito diferente da sua e, com a ajuda do mediador, aprenda a não invalidá-la.

A tendência das pessoas, ao escutar narrativas muito diferentes das suas de uma história vivida por elas, é dizer: “Não é verdade, o que aconteceu foi que ”. E o mediador precisa interferir dizendo: “Ela está contando a história como ela viveu. É a perspectiva dela” (aqui, fica visível a importância estratégica de cada um contar sua história sempre na primeira pessoa do singular), “Daqui a pouco, você vai po- der contar como você viveu essa história, a sua história”. Desse modo, o mediador precisa validar todas as narrativas e, para isso, pode utilizar as afirmações operativas apresentadas mais adiante.

Muitos podem perguntar: “E se as pessoas mentirem?”

A Mediação trabalha com o princípio da confiança (ver texto de apoio “Cuidados para abrir espaços de diálogo” no caderno Respeito na Escola). Assim, é necessário cuidar da segurança do espaço para que ele seja de confiança e as pessoas se sintam à vontade para falar abertamente. Se a Mediação está funcionando bem, em princípio, não há por que mentir ou esconder algo, mas, se parece que alguém está mentindo ou omitindo algo, é preciso compreender que cada um tem seu momento e que talvez, naquele momento, a escolha seja de fato mentir ou omitir, mas, em outro, quando estiver mais à vontade, espera-se outra maneira de agir. A mentira pode ter sua função, sendo, na maior parte das vezes, uma forma de proteção (preservar a imagem social e a autoimagem, evitar consequências indesejáveis etc.).

Como a Mediação é um espaço de encontro com o outro, um espaço de cor- responsabilização, todos são chamados a falar sobre como contribuíram para o conflito. No entanto, se responsabilizar dói e exige aprendizado. Nesse sentido, é importante provocar esse aprendizado, mas também respeitar o tempo do aprendizado de cada um. Por isso, não se trata de “deixar por isso mesmo”, mas de, aos poucos, criar um espaço de responsabilização, conduzindo a um processo transformador de construção de autonomia.

Outros tipos de perguntas informativas

Há ainda pedidos de esclarecimentos de respostas dadas pelas pessoas. Apresentamos aqui alguns exemplos:

  • Respostas com generalizações

    (como “a sociedade...”, “a gente...”, “as meninas...”, “as pessoas...”, “nós...”) merecem uma pergunta para procurar discriminar, especificar: “Nós quem?”, “As pessoas, quem?”, “Todas as meninas? Que meninas? Só as meninas?” etc.

  • Respostas no negativo

    (como “Eu não quero...”) merecem ser transformadas em algo positivo (sendo mais fácil trabalhar com uma possibilidade do que com uma impossibilidade): “O que você quer?”.

  • Em respostas em que não vemos o sujeito,

    precisamos encontrá-lo por meio de questões como: “Não é assim que tem de ser”, “Você acha que não pode ser assim, é isso?”, “Como você gostaria que fosse?”.

  • Em respostas que transformam processos em eventos, acontecimentos ou estigmas,

    precisamos resgatar o processo perguntando pelo como: “Ele é estúpido?”, “Quando ele é estúpido? Estúpido como? Alguma vez ele não fez isso que você considera estúpido?”.

Afirmações operativas

As afirmações operativas são falas do mediador que fazem funcionar a lógica de valorização e reconhecimento mútuo. Junto com as perguntas, essas afirmações explicitam a escuta do mediador e criam o ambiente de confiança e construção conjunta do espaço da Mediação.

São alguns exemplos:

  • Resumo ou feedback

    O mediador repete o que a pessoa acabou de dizer (às vezes com suas próprias palavras, às vezes usando as palavras da pessoa) e checa o entendimento com quem acabou de falar.

  • Conotação positiva

    Em alguns momentos, o mediador precisa dar preferência para a escolha de palavras que conotem positivamente algumas ações dos envolvidos. Por exemplo, em vez de nomear alguém como “teimoso”, essa pessoa pode ser qualificada de persistente; a “perfeccionista”, de cuidadosa; a “exagerada”, de intensa. O cuidado na conotação positiva é não tornar isso artificial. A conotação positiva não pode ser usada para “dourar a pílula”, mas para fortalecer a possibilidade de diálogo.

  • Legitimar, gerar reconhecimento

    Na maior parte dos conflitos que chegam para Mediação, as partes precisam de reconhecimento e legitimação, pois quase sempre estão num processo de desvalorização mútua. Cabe ao mediador estimular o reconhecimento mútuo por meio da valorização e da legitimação das partes.

  • Um exemplo de legitimação e reconhecimento: “Vejo que vocês estão se esforçando para conversar sobre a situação. Às vezes, é difícil falar sobre algo que nos machucou. E vocês estão se mostrando corajosos”.

Perguntas reflexivas

As perguntas reflexivas trazem questionamentos abertos (ou seja, cuja resposta nunca é “sim” ou “não”) e que imprimem um tom reflexivo à conversa. Na Mediação, todos são convidados a refletir sobre o que fizeram, o que os motivou, como contribuíram para que acontecesse, quais seus sentimentos em relação ao que aconteceu.

Uma boa pergunta reflexiva precisa se basear numa escuta muito atenta das pessoas em Mediação e precisa ser reflexiva para elas, não servindo para direcionar o enten- dimento das pessoas sobre a situação.

Em outras palavras, a pergunta reflexiva não é uma forma de dirigir a conversa para um lugar predeterminado que o mediador considere adequado. É verdade que o me- diador faz a pergunta com uma intenção (de provocar uma reflexão sobre o ato, as circunstâncias, as motivações etc.), mas ele precisa suspender sua expectativa em relação ao resultado. A incerteza é um fator importante com o qual o mediador tem de lidar o tempo todo.

Aqui, fica evidente que a Mediação pode ser considerada uma “prática de si”, ou seja, um exercício de reflexão sobre si na relação com o outro.

Exemplos de perguntas reflexivas são aquelas que ajudam a entender as relações entre os eventos e as pessoas envolvidas, seus sentimentos, suas ideias e ações, recontextualizando-as no tempo e no espaço:

Como você se sente em relação a     ?

Isso costuma acontecer em relação a quê?

Como ele reage em relação a     ?

Quando isso acontece com outras pessoas, como é?

Quando isso acontece em outro lugar ou em outro momento, como é?

Quando você fez isso, o que você queria?

O que será que pode acontecer se     ?

Perguntas circulares

Essas perguntas fazem circular as impressões, os entendimentos, a palavra, com o intuito de saber de uma pessoa como foi escutar a fala da outra, ou o que ela en- tendeu do que a outra falou e vice-versa, por exemplo: “Como foi escutar o que ela entendeu do que você disse?”. Há mediadores que fazem a palavra circular o tempo todo dessa maneira.

E isso ajuda muito as pessoas a se escutarem, darem notícia da sua escuta, bem como perceberem que a nossa escuta e a escuta do outro não são sempre como a pessoa que fala gostaria que fosse.

Perguntas mobilizadoras

Essas perguntas buscam mobilizar recursos ou ajudar cada um dos envolvidos a pensar nas implicações de suas ideias e ações, como nos exemplos a seguir:

O que é necessário que aconteça para que você tenha coragem de dizer isso ao outro?

Se o problema desaparecesse, o que mudaria na sua vida?

Do que você precisa para fazer diferente em uma próxima vez?

  • Perguntas esclarecedoras, reflexivas e mobilizadoras às vezes se confundem. Ao esclarecer, uma pergunta pode provocar reflexão e também pode mobilizar verdades, ou vice-versa, nas mais variadas combinações.

No livro Mediação de Conflitos  da coleção Respeitar é Preciso, essas perguntas e intervenções (na caixa acima) são descritas em maior detalhe.

Outros materiais interessantes são o livro de Mediação Circular Narrativa da argentina Marinês Suares e o livro Conversas Difíceis dos americanos Bruce Patton, Douglas Stone e Sheila Heen.

5

cuidados para abrir espaços de diálogo

6

encontros de mediação

7

intervindo no cotidiano

8

foco no futuro

9

ritualizar

Massa crítica e sustentabilidade ocorrem quando membros suficientes de um sistema adotaram a inovação a ser implementada. Cada novo membro que adere ao processo de mudança tem o potencial de trazer consigo sua rede de pares. Isso é particularmente importante para a maioria tardia do grupo, a qual precisa ser convencida por seu círculo imediato de influência. Donde a importância de se mobilizar as redes internas e externas.

10

pactuar combinados de conversa

As r

Muitas questões começam a surgir quando as regras postas não são observadas por todos e um sistema de regras de fato se estabelece paralelamente/oficiosamente, sem que isso esteja explícito para todos.

Se por um lado o sistema oficioso acaba muitas vezes estabelecendo um sistema de privilégios sem critérios compartilhados, por outro, a existência de um sistema oficioso explicita que muitas das regras não fazem sentido para uma parte importante daquele coletivo.

Quando isso acontece, as regras perdem credibilidade e o sentimento de injustiça começa a atravessar as relações.

As queixas sobre excesso de controle ou permissividade na relação com as regras não são raras. É preciso transformar essas queixas em assunto de com-versa. Não de queixa reversa (por exemplo, com “lições de moral”), mas de troca de ideias sobre como cada um se relaciona com as regras postas e oficiosas.

Como sair das armadilhas seja do excesso de legalismo/rigidez ou da falta de bordas, da permissividade, é certamente um dos grandes desafios.

Algumas pistas:
  • fazer com-versas sobre os princípios das normas, compreender junto se estão adequadas aos princípios pedagógicos da escola;

  • conversar sobre a possibilidade de flexibilização das regras (exceções etc.) e sobre critérios para isso;

  • definir juntos o que é inegociável tendo em vista legislações externas à escola e também considerando os princípios da própria escola;

  • definir que regras são negociáveis e fazer acordos sobre elas;

  • conversar sobre como fazer para que as regras sejam válidas para todos e o que farão caso sejam descumpridas. Não necessariamente é preciso recorrer à punição, aliás essa é a opção menos interessante; pode-se pensar em rearranjos, sistemas coletivos de cobertura, pactos sobre modos de funcionamento no caso do descumprimento;

  • estar disposto a retomar, rever e revalidar as regras periodicamente.

Pode parecer penoso todo esse trabalho de reflexão sobre e revalidação das regras, porém, há trabalhos que economizam desgastes cotidianos e, no cômputo geral, valem a pena.