Um pouco de história

caleidoscópios dos diálogos sobre conflitos

uma leitura ampla

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Perspectiva ético-política
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Perspectiva restaurativa
Desjudicializar a vida
Fazer coletivo na escola
As regras na escola
Conflito e violência

alguns dilemas

conceitos-ferramentas

práticas

Alguns dilemas

| conflitos na escola

1

responsabilizar ou punir

Qual é a função da punição? Será possível, na escola, trabalhar sem recorrer à punição?
A punição no cotidiano escolar costuma ter a função de regular as relações, colocar limites. Essa é a justificativa oficial da punição. No entanto, a punição muitas vezes acaba consistindo numa violência para conter outra violência. Essa é justamente a fórmula da escalada do conflito, e da violência.
Trabalhar com responsabilização ao invés de punição significa fazer um câmbio de perspectiva:

Punir X Responsabilizar-se

2

autoridade e autoritarismo

Muitos educadores se queixam de não terem mais autoridade com seus alunos. De fato, podemos dizer que há uma crise de autoridade. Mas, o que é uma crise?

É um momento em que a ordem das coisas já não responde aos anseios da sociedade ou da pessoa. Esse momento em que se sente uma espécie de desajuste é também um momento de fazer novas escolhas, de forma a estabelecer um novo modo de se organizar.

A autoridade baseada no título (professor x aluno) ou na diferença de idade (adulto x criança) não parece fazer mais sentido no nosso momento social. E talvez o principal motivo não seja apenas porque a tarefa do professor não é mais tão valorizada, como temos tendência a crer, mas sobretudo porque o modo como se legitima a autoridade não depende mais de critérios objetivos ou externos à relação.

Querer fazer valer uma autoridade baseada meramente nesses critérios hoje soa como autoritarismo. Uma autoridade que quer se firmar pelo título ou pela força será autoritária.

A autoridade hoje precisa ser conquistada, na relação com o aluno por meio do diálogo, do respeito e da troca significativa. Será resultado de uma relação de admiração do estudante vis a vis do professor.

Professor adulto e aluno/estudante criança/adolescente/jovem ocupam papéis sociais complementares, diversos pela diferença de responsabilidade, de experiência, de maturidade e de conhecimento.

Assim mesmo, ambos são sujeitos de direito, iguais como seres humanos, dignos de igual respeito.

Formalmente, desde o Estatuda da Criança e do Adolescente (ECA), crianças não são mais “projetos de adultos”, mas sim sujeitos, assim como os adultos. Essa formalidade é acompanhada por um sentimento de igualdade por parte das crianças/adolescentes/jovens que faz com que a conversa com eles não possa se pautar mais na lógica da obediência, mas sim do reconhecimento mútuo.

3

e as mentiras?

Essa é uma pergunta frequente. Talvez compreendendo que as mentiras são mecanismos de defesa e se há defesa é porque não há confiança de que falar a verdade é seguro.


Se o trato com o conflito estiver na lógica judicial de produção da verdade em que se procura estabelecer os culpados para puni-los, de fato, falar a verdade pode não ser seguro.

Estabelecer outra lógica de lidar com conflitos é algo que não se dá do dia para a noite. Certamente, até a cultura dialógica se consolidar na escola, será muito frequente que mesmo tentando abrir diálogos abertos, procurando respeitar os princípios de trabalho da Mediação de Conflitos e utilizando todos os recursos à disposição da mediação, das Práticas Restaurativas e da Comunicação Não Violenta, haja alguma desconfiança.

Em suma é preciso persistir, ser coerente, não trair os princípios, manter o apoio da escola e caso seja necessário encaminhar o caso à rede de apoio. Aos poucos, à medida que se vai criando uma história de boas conversas, todos na comunidade escolar vão confiando.

Como diz a psicóloga e mediadora Silvana Cappanari, a confiança se constrói fiando junto.

Outro aspecto a considerar é que nem sempre o que consideramos mentira é de fato mentira. Cada um vivencia as situações de modo diferente, até mesmo o que parecem ser fatos objetivos e irrefutáveis para um, para outro podem ser simplesmente irreais.

 

Nesse sentido, um recurso importante pode ser lembrar da lição de diferenciar observação e interpretação. As figuras clássicas de Gestalt também podem ajudar nessa compreensão. O que é verdade nessa figura, por exemplo? A velha ou a moça?

A velha e a moça, as duas imagens são “verdadeiras”, mesmo se quem vê a velha não vê a moça e vice-versa.

A lógica de “uma coisa ou outra” precisa ser substituída pela lógica de “uma coisa e outra”.

4

aluno problema

O aluno-problema é tipicamente resultado de uma lógica individualizante. É um personagem importante na manutenção dos modos de funcionamento da instituição escolar, sendo, portanto, criado pela escola.


Pode parecer abusado dizer isso, afinal, em geral, o tal do aluno-problema também tem um histórico familiar complicado, talvez condições de vida difíceis ou até alguma questão de saúde mental. Não raro, ele também foi aluno-problema em outra escola e não será difícil encontrar a causa de “seu problema” nessa sua história de vida, bem como confirmar essa hipótese com seu histórico escolar.

De fato, o maior “problema” do aluno-problema é o modo como olhamos para ele e abordamos as questões que ele traz. Enquanto a ideia de que ele representa um problema para a escola permanecer, assim será.


Em geral, e claro que há exceções, essa criança ou adolescente corporifica muitos nós da prática educativa, do modo como se dão as relações, dos atravessamentos da cultura dominante na escola. Ele presentifica as intersecções. Ele revela impotências dos adultos.


Tendo essa pista, podemos olhar para ele como sujeito que tenta encontrar uma forma de ser reconhecido, de ser escutado, ter suas necessidades atendidas, e também podemos ver nele como a escola não está dando conta de algumas questões.


Ele precisa encontrar espaço de escuta qualificada e também a escola precisa, pois nele há um espelho que reflete para escola aquilo de seus funcionamentos que ela precisa reolhar.


No espaço dialógico será possível encontrar novos caminhos para ele e para a escola.

5

famílias e escola

A escola é um espaço de transição entre o espaço privado e o espaço público.

Nela, a criança tem suas primeiras experiências de vida pública. Se por um lado experimenta a vida social, a construção do comum com um círculo muito maior de relações, o que gera uma série de novos desafios e também oportunidades de aprendizado; por outro, escapa das relações fechadas, previsíveis, repetitivas e protegidas (ou não) da família.

Ao que parece, a relação de consumo que passou a pautar a relação entre a família e a escola exerce uma pressão de privatização do espaço da escola. Defender uma prática pedagógica com base no Projeto Político Pedagógico da escola já não é tão evidente.

Cada vez mais, pautas políticas da escola são questionadas pelas famílias com base em suas escolhas éticas. O respeito à diversidade de gênero na escola é um exemplo das divergências que vêm permeando a relação família e escola.

Por outro lado, as famílias estão muito cientes do quanto precisam da escola não só para formação de seus filhos para o mundo do trabalho, mas também como rede de apoio, para poderem realizar suas atividades, como trabalhar, enquanto seus filhos estudam.

Melhor do que isso, a pandemia de covid-19 revalorizou aos olhos da família a escola como espaço de socialização e aprendizados. Os professores têm uma tarefa importantíssima, difícil e que não consegue ser substituída pela ação da família. Assim, o momento é propício a estabelecer uma lógica colaborativa.

Para isso, no entanto, os educadores também precisam fazer sua parte e assumir para si a tarefa educativa dentro da escola, sem culpabilizar as ditas “famílias desestruturadas”. Os arranjos familiares são diversos e potentes e tendem a se complexificar cada vez mais. É preciso abandonar de vez a lógica individualizante  e culpabilizante.

A possibilidade de uma lógica colaborativa a reger a relação entre essas duas instituições (escola e família) depende de um esforço de compreensão mútua, para que possa migrar para uma relação de apoio mútuo.

6

bullying?

O que se encena no que se vem chamando de bullying é a repetição de uma mesma violência com uma mesma pessoa por diversos atores de um mesmo agrupamento. Na humilhação que se produz com essa repetição pode haver conteúdos de diversos tipos de discriminação, dentre elas racismo, discriminação de gênero, gordofobia, entre outros.


A criminalização desse tipo de situação na escola vem na esteira da lógica judicializante da vida e aposta na punição exemplar.

Na lógica de que estamos falando neste material, a abordagem na escola, antes de criminalizar e punir, precisa ser educativa.

Muito importante desconstruir o movimento grupal de humilhação repetida de uma mesma pessoa por um lado e fundamental transformar as discriminações e assuntos discutidos na escola.

A desconstrução desse movimento grupal precisa passar pela leitura do grupo e das relações de força que o sustentam nessa atuação. Também, compreender por trás das ações de discriminação voltadas para o outro, que necessidades a prática dessas humilhações escondem e pensar formas da atuar nesse sentido.

Então será preciso desenhar formas de encontros de Mediação de Conflitos, de Comunicação Não Violente e de Práticas Restaurativas que permitam essa desconstrução e também, eventualmente, articular-se com a rede de apoio do território.

Com isso quero dizer que a abordagem não pode ser individualizante, nem simplificadora.

7

todos precisam ceder um pouco. será?

Quando falamos em mediar conflitos, muitas vezes ouvimos esta sentença: todos precisam ceder um pouco.

A ideia parece bastante razoável, afinal, como será possível viver em sociedade se todos fizerem tudo que quiserem. No entanto, essa afirmativa também fala da necessidade de perder algo para conviver com o outro. Ou seja, a relação com o outro acaba sendo significada pela falta. O outro acaba se tornando o obstáculo para minha plena realização.

Ora, o convívio com o outro pode ser muito mais rico do que isso. Não se trata de ceder, de perder algo para poder estar com o outro. Trata-se de, a partir da relação com o outro e da necessidade de conviver, me reelaborar e produzir outras ideias de mim mesmo. Ao contrário de perder algo, ganhar uma nova forma de estar junto, enriquecer meu repertório, aprender a manejar meu repertório de formas de me relacionar a partir daquilo que valorizo e do contexto e das relações nas quais estou inserido.

Isso também não significa que nesse processo do relacionar-se, serão só alegrias. Para estar com o outro, precisarei ganhar resiliência e suportar o desconforto de me deslocar do que acredito que sou, do que conheço de mim e do modo como costumo reagir.

Educar para o viver junto, educar para que todos ativem sua multiplicidade, significar esse esforço de convivência como um ganho, uma riqueza para a vida. É disso que se trata!

Vamos juntos aprender a viver juntos!
Vamos ativar nossa multiplicidade!